No momento em que o mundo se volta para dentro de casa e a grande aldeia parece espremer-se no espaço interno, volto ao Mirante, tentando olhar para além do nevoeiro que nos envolve a todos. Das nove semanas de quarentena, sendo que as duas últimas em total isolamento, deparei-me com as portas e janelas, sempre fechadas, por medo. Esse período coincidiu com a preparação e celebração da páscoa cristã, festa da vida nova. “Era o primeiro dia da semana. Ao anoitecer desse dia, estando fechadas as portas do lugar onde se achavam os discípulos por medo das autoridades dos judeus, Jesus entrou. Ficou no meio deles e disse: ‘A paz esteja com vocês.’ Dizendo isso, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos ficaram contentes por ver o Senhor.” ( João 20,19s) O Ressuscitado ao se apresentar a comunidade, repete o padrão ministerial dos anos de caminho e vivência com os discípulos. Jesus era convidado, como no episódio do casamento em Caná da Galiléia, ou ele...
A experiência de “lockdown” não tem sido solitária, ao contrário, somos acompanhados por multidões ao redor do mundo. Através das nossas telas vimos o Papa Francisco que, com gestos e voz profética, falou para ao vazio mais cheio que se pôde testemunhar: " A tempestade desmascara a nossa vulnerabilidade e deixa a descoberto as falsas e supérfluas seguranças com que construímos os nossos programas, os nossos projetos, os nossos hábitos e prioridades." . A tempestade de que ele fala é uma pandemia que já era anunciada e até esperada. Não se sabia quando, mas era certo que um dia chegaria. A ciência previa, mas não escutamos e nem nos precavemos. Era mais importante seguir com a ordem do dia, seja na economia, na política ou nas relações sociais. Os compromissos e agendas fizeram com que se corresse, sempre mais, atrás do prejuízo. Foi então que a vulnerabilidade se apresentou mais forte do que o poder fazer ou decidir. Surge o momento em que já não se sabe mais ...
Quem não conhece o mar , que me desculpe. Mas poucas coisas são tão relaxantes quanto caminhar a beira mar, ouvindo o ruído das ondas quebrando, o vento no rosto, o cheiro úmido, o gosto salgado, a maresia, a areia fina sob os pés. Escrevo isso longe do mar. Estou em Belo Horizonte , capital mineira. Escrevo isso como um gesto de saudade. Não sei se do mar, se das ondas, do vento ou da maresia. Talvez saudade da liberdade que tudo isso inspira. Mas o que é liberdade se não a capacidade de entregar-se? Quanto tempo levou para me aproximar do MIRANTE? Quanto tempo levou para olhar o que está a minha volta? Quanto tempo levou para cruzar a porta entreaberta e ser visto? Deve ter sido o tempo da liberdade ... o tempo da saudade! A liberdade de caminhar com dignidade sem nada dever. A liberdade de sonhar como se ninguém antes tivesse sonhado. A liberdade de dizer sim, mesmo achando que deveria dizer não. A saudade de um tempo inconseqüente , se é que isso existiu ...
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